#mulheresquefotografam // Flávia de Quadros

Meu nome é Flávia de Quadros, eu tenho 48 anos, moro aqui em Porto Alegre, sou nascida aqui. Eu estudei Jornalismo e Artes, sou mestre em História da Arte e agora terminei a graduação em Artes. O meu trabalho hoje é mais com artes do que com fotojornalismo, embora as coisas se cruzem.

Nítida: Como tu começaste a fotografar e por que tu começaste a fotografar?

Flávia: Ih, faz tanto tempo… (risos). Eu achava muito legal a fotografia, eu tinha amigos que fotografavam e a minha irmã era jornalista, tinha feito curso de fotografia no Senac. E eu achava muito bacana. Eu comecei a fotografar quando eu ganhei uma camerazinha usada, sei lá, eu tinha uns 12 anos… mas não era uma coisa com pretensões. Aí quando eu entrei na faculdade eu tive um tempo livre, pois teve uma greve muito longa, e daí eu fui fazer um curso de fotografia. E aí eu não parei mais de fotografar.

N: Na faculdade de jornalismo?

F: Na faculdade de jornalismo, em 1992 isso. Eu tinha curiosidade, assim, mas eu não tinha pegado uma câmera e sair fotografando. E daí eu fiz esse curso com a Vilma Sonaglio, que é artista também. Era um curso de um mês, no Senac, que a gente aprendia  basicamente a técnica: exposição, revelação, alguma coisinha de composição e só. Mas dalí eu comecei a fotografar, segui fotografando, depois eu fiz uma monitoria na faculdade. Quando eu me formei já tava com alguns trabalhos em foto, em fotojornalismo, trabalhava para sindicatos… para o que aparecia. Aí passei um ano nos Estados Unidos, fui pra estudar inglês e acabei estudando fotografia – tinha um monte de cursos de fotografia lá, que não tinha aqui nada. E quando eu voltei foi só fotografia, não quero saber de outra área. Recusei uns trabalhos que não eram em foto e foi indo.

N: E hoje tu trabalhas em quê, com a fotografia?

F: Eu dou aula de fotografia na Famecos, já faz 8 anos e meio. E a fotografia tá sempre presente no meu trabalho artístico, embora já não seja mais só fotografia. É um trabalho muito de ação na cidade, mas eu tenho trabalhado muito com as redes sociais também como meio veiculação do trabalho, de continuidade do trabalho no meio urbano. E aí a fotografia se mistura um pouco com o vídeo, com registro em áudio…mas ela tá sempre ali, né.

N: Quando a gente ama não tem, né…

F: É…

N: Tu percebes alguma discriminação de gênero ou machismo  no meio fotográfico?

F: Olha… eu acho que já foi muito pior. Quando eu comecei era bem difícil. Tinha realmente, assim, dentro do fotojornalismo, por exemplo, tinha redação que não contratava mulher, que já sabia que não adiantava nem bater, porque existia uma determinação de não contratar mulher. Existia no meio, sim, uma certa discriminação. Eu acho que pras mulheres em redação foi sempre mais difícil. Mais difícil de ser respeitada pelos editores, mais difícil de ser respeitada pelos colegas. Eu acredito que hoje as coisas estão mais mudadas e acredito que pra quem veio antes de mim foi muito pior, né.. Se for ouvir histórias da Dulce Helfer, da Jacqueline Joner, com certeza elas vão ter coisas pra dizer, de mais discriminação, embora elas tenham conseguido um lugar no mercado. Não acho que isso nos impede, mas acho que dificulta. Desgasta… a gente tem que ter mais firmeza no propósito.

N: Hoje em dia tu não percebes tanto?

F: Não noto isso, mas eu também não tô nesse meio do fotojornalismo todo dia trabalhando pra poder dizer “aqui tem mais, aqui não tem mais”. Agora o machismo tá presente na sociedade, então a gente sai pra rua a gente tá disposta ao machismo. Sai pra rua com uma câmera na mão, tu tá em evidência. Até uma vez a Nítida participou de um debate lá na semana de foto da Famecos e teve alguns depoimentos de algumas alunas, assim, que disseram que se sentiam mais constrangidas quando tavam com a câmera e tal. E eu sempre me senti com mais poder com a câmera na mão. A câmera de uma certa maneira ela traz essa potência pra gente, assim, de sujeito, de agente cultural, de alguém que tá produzindo um discurso, né, produzindo uma narrativa, então acho que esse lado é o mais bacana. Se for relacionar com essas questões de gênero, é a gente ter voz através da imagem.

N: E o que tu entendes por feminismo e se tu te consideras feminista?

F: Ah, eu me considero feminista há muitos anos (risos). Feminismo hoje tem muitas vertentes, né, e não é de hoje que tem muitas vertentes, mas pra mim é uma defesa da igualdade de oportunidades e de respeito e reconhecimento da mulher como alguém que tem as mesmas capacidades intelectuais, as mesmas capacidades produtivas. Porque nós temos diferenças que também precisam ser respeitadas, mas nesse sentido acho que precisa ter igualdade.

N: E tu tentas trazer de alguma forma isso pro teu trabalho com fotografia, e como professora também?

F: Alguns trabalhos meus em arte, mais do que na fotografia, não me lembro se tem trabalhos de gênero. Com as alunas com certeza, muitas vezes a gente tem que abordar essas questões… até pra fazer um encorajamento, porque elas são mais reticentes, às vezes elas são mais cerceadas: “ai, não quero ir em tal lugar porque tem risco… não quero fazer tal coisa”. Aí a gente tem que abordar por esse lado de gênero, sim, a gente tem que dizer algumas coisas. “Ah, aqui no centro é perigoso”. Daí eu digo, “bom, pelo menos tu vai lá e olha e forma o teu juízo e aí tu pode te precaver da maneira que tu achar”. Porque se cada vez que alguém dissesse pra mim não fazer alguma coisa, e eu não tivesse feito, eu não tava aqui hoje. Então, assim, esse lado sim. Mas eu acho que a postura da gente é uma postura feminista, entendeu, na atitude. Não precisa estar necessariamente no tema pra tu ter uma atitude feminista… eu acho que é a atitude de não se dobrar mesmo, de não se constranger, de buscar os espaços, de ocupar os espaços, já é uma atitude feminista.

N: E tu dá aula em qual cadeira?

F: Agora eu tô dando fotojornalismo, produção de revista e fotografia e design.

N: E nas tuas aulas tu buscas trazer referências femininas em comparação com as masculinas? Porque um dos motivos de a gente ter feito o coletivo era porque não tinham referências femininas na faculdade…

F: Exatamente. E uma das coisas que eu falei pras gurias quando elas estiveram lá foi: “E as fotógrafas brasileiras?” Que a pesquisa iniciou com todo um repertório que não era brasileiro. A gente busca trazer e eu acho que a gente sempre traz o repertório da gente. E quando o teu repertório tem esse olhar, que é mais pra produção feminina, tu acaba trazendo. Eu gosto, sim, de trazer bastante e de comparar, às vezes, se tem um outro fotógrafo sendo apresentado, trazer o trabalho de uma mulher que tenha uma referência… eu acho que é importante. E temas, né, relacionados a gênero. Eu noto que, às vezes, as alunas, por exemplo, até pra aprovar uma pauta elas se apoiam mais em mim, porque às vezes aquele professor que é homem não vai ter compreensão, uma sensibilidade para aquele tema, numa pauta que aborda questões de gênero. E aí a gente tem que, muitas vezes, argumentar e dar uma sustentação, porque senão a visibilidade não chega.

N: É, é muito importante ter uma professora que sirva de exemplo também…

F: É, eu já ouvi isso das alunas, também, né. E claro que pra nós o mercado é sempre mais restrito, se for olhar… Sempre são outros caminhos, a gente tem que encontrar outros caminhos. Tem que fazer desvios, tem que muitas vezes ir ali pela borda, até chegar em algum lugar. Mas, ao mesmo tempo, acho que nós somos privilegiadas, entre aspas, por estar conseguindo abrir esses caminhos. Quando a gente olha pra trás, eu penso sempre assim, né, tudo que tá sendo construído tá sendo construído em cima de alguém que já fez. Então quando a gente olha pra trás a gente tá numa posição melhor. E acho que a gente tem uma responsabilidade também de deixar uma realidade melhor pra quem vem adiante.

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Contato: @flaviadquadros 

@fontepoa


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