#mulheresquefotografam // Francine Lasevitch

Eu sou a Francine Lasevitch, tenho 29 anos e moro em Gravataí. Sou de Porto Alegre, mas moro em Gravataí.

Nítida: Como tu começaste a fotografar? Tu fotografas profissionalmente?

Francine: Sim e os dois no caso. Eu fotografo como artista visual e fotografo na publicidade com alguns trabalhinhos pontuais, porque eu sou publicitária. Eu sou diretora de arte, então eu acabo pegando muitos trabalhos de foto também.

N: Tu trabalhas na fotografia artística e autoral  em qual viés?

F: Assim, a minha relação com fotografia começou quando eu tinha 14 anos. Eu tava passando por uma depressão, eu não sabia, e a minha mente encontrou a fotografia como um meio de conseguir me expressar. E cada vez que eu ia fazendo, sempre através de autorretratos, eu ia me sentindo bem com aquilo e fui levando o autorretrato desde os 14 anos anos.  Eu ainda faço, então eu trabalho como artista visual hoje ainda com autorretrato.

N: Tu estudas ou estudaste fotografia?

F: Eu fiz publicidade, fiz algumas cadeiras de fotografia. Estudei fotografia quando eu era adolescente, na Câmera Viajante, faz muito tempo, eu tinha uns 12 anos assim, uma piá, e daí é isso. Mas eu acho que fui mais autodidata do que realmente aprendi na faculdade assim, acho que foi bem pontual ali

Na verdade eu descobri que fotografia era uma terapia, uma maneira de eu me expressar, de me sentir melhor. Depois que eu comecei a fazer terapia, pois eu não sabia porque eu ficava fazendo as minhas fotos, eu não entendia porque eu fazia as fotos que eu fazia, e as pessoas às vezes se assustam com minhas fotos e eu não entendia porque sabe, pois  pra mim aquela foto era normal, não me assustava aquilo, e daí na terapia eu comecei a entender que na verdade eram medos, inseguranças, questões até mesmo femininas que uma guria passa e tal. E fazendo as fotos é uma maneira que eu tenho de, ao invés de tomar um caminho mais negro da vida, eu consigo levar a vida mais leve, me sinto melhor sabe. Então é muito importante pra mim, a fotografia.

N: Ah, que legal isso.

N: E tu percebes alguma discriminação de gênero, machismo, no meio fotográfico? E como artista, tu percebes isso em editais, premiações, convocatórias?

F: Não faz muito tempo que eu comecei a me inscrever em editais. Eu não posso dizer que eu vi nada assim, mas no trabalho já. Já passei por algumas situações, que eu já trabalhei em casamento, daí eu era segunda câmera, isso há um tempão  atrás, e era eu e o fotógrafo homem, e sempre todo mundo priorizava tirar foto com ele, nem me olhava. Claro, não era meu segmento, eu fui descobrir isso depois, que eu não era fotógrafa de evento assim, mas eu me senti meio discriminada na época, naquele momento, daí eu até pensei em largar a fotografia, não sirvo pra isso, sei lá, mas enfim, acho que era isso.

Ah, quando eu era adolescente eu também participei de um sul fotoclube, que era um grupo de fotografia aqui de Porto Alegre muito legal e era eu e mais duas mulheres, o resto era tudo homem. E aí rolava piadinhas e coisas assim e essas duas mulheres largaram a fotografia e eu não sei porque, eu achei que tinha muito dessas piadinhas que rolavam, eu também fiquei um tempo longe da fotografia, mas acabei voltando. Mas essas duas outras mulheres não, saíram total.

N: A outra pergunta é o que tu entendes por feminismo e tu te consideras feminista?

F: Bah, difícil essa pergunta (risos).

Eu não me considerava nem um pouco feminista tá até o ano passado, nem sabia o que era isso, e mais ou menos levava a minha vida ali, com a minha foto. E aí entrei pra pós e eu me uni com umas outras gurias na Pós em Design da Unisinos e aí eu senti uma força assim sabe entre nós, uma troca muito legal entre nós. Comecei a terapia também, bem nessa época, e eu comecei a passar literalmente por uma metamorfose sabe, uma revolta. Comecei a me questionar e isso aparece claramente nas minhas fotos. Que elas começaram a ficar mais pesadas. Eu comecei a me questionar. Vou dar exemplos: Eu não gosto da cor rosa, mas eu comecei a olhar meu quarto e minha cama era rosa, minha parede era um tonzinho de rosa, e eu “peraí, isso não é eu sabe”, e comecei a me questionar assim. “O que eu tô fazendo? Eu pareço quem eu quero ser?”.  Enfim, e bem na época comecei a trabalhar pra Fernanda Melchionna, daí trabalhei na campanha dela e claro, daí comecei a me envolver. Eu nunca me achei uma pessoa política e que gostasse de política e quando eu encontrei ela e comecei a ouvir o que ela dizia e o que ela defendia , eu “meu deus do céu”. Eu me encontrei sabe, política pode ser algo legal e daí nisso tudo eu me transformando e tal e daí agora, eu comecei a trabalhar pra ela lá na câmara e me envolvi mais ainda com essas questões.  Eu acho que agora eu posso me considerar feminista, porém num nível iniciante. 

Que eu percebi que eu preciso me identificar com algum grupo sabe, e eu me identifiquei muito com esse grupo das mulheres que lutam pelos seus direitos, que defendem a sua identidade. Não interessa que identidade seja essa. E esse sentimento mesmo de a gente estar junto.  E ontem eu me dei conta de uma coisa nas minhas fotos, que Ana disse aqui, sobre esse sentimento de que as pessoas andam cada vez mais individualistas e no seu mundinho. Ela disse que uma das professoras dela perguntou pra turma o que eles não queriam e a maioria respondeu que não queria trabalhar num grupo. Então as pessoas tem medo de expor sua opinião, porque a delas é a que vai estar certa e elas não querem nem ouvir a opinião do outro, as pessoas tão muito assim. E daí eu identifiquei que era bem isso que daqui um pouco eu tô tentando passar nas minhas imagens. Mulher, solitária, que está ali, num canto vazio, e ela se questiona o porque ela tá ali naquele ambiente que ela não gosta, mas ela continua ali, então, tá e aí? Tu vai fazer alguma coisa ou não sabe. Então eu tô passando por todas essas coisas ao mesmo tempo (risos) .

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Contato: @franlasevitch

www.francinelasevitch.com.br


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