#mulheresquefotografam // Mariam Pessah

Meu nome é mariam pessah, sou argentina e vivo em Porto Alegre desde 2001. Eu costumo dizer que sou uma fotógrafa desativada, pois não estou fotografando atualmente, mas me dediquei ao oficio da fotografia um tempão, sobretudo acompanhando os movimentos sociais, dentre eles, o das mulheres. De uns anos pra cá, fui trocando a fotografia pelas letras. Lancei recentemente meu último livro : Grito de Mar

Me especializei em fotojornalismo. Quando fiz quinze anos ganhei a câmera e comecei a fotografar nas manifestações. No ano seguinte comecei a estudar e não parei mais. Quando vim para o Brasil me perguntavam “ah tu vem estudar?” Também. Acontece que sou autodidata, mas, quando fiz 45 anos e com certas mudanças que aconteceram na minha vida de ativista, decidi entrar na academia. Primeiro fiz letras e depois Escrita Criativa, na PUCRS. Quando eu tinha uns 19, 20 anos houve umas jornadas de fotografia em Buenos Aires. Era necessário apresentar um trabalho para poder participar. Aí me puxei um tempo, durante um tempo ia aos bares e cafés de Buenos Aires e ficava fotografando às pessoas. Então, apresentei esse trabalho e consegui participar. Foram quatro dias na cidade de La Plata com fotógrafos como Sebastião Salgado, Mark Bussel, Susan Meiselas. Foram quatro dias fascinantes. A gente fotografava durante o dia e, de manhã, a gente analisava o material do dia anterior, eram épocas de fotografia analógica. Tinha um pessoal que revelava os filmes para a gente. Alto nível (risos) No grupo a gente via como esse material ficaria no jornal, Mark Bussel era o editor do New York Time. Esse workshop foi bem marcante para mim.

Nítida: Por que tu começaste a fotografar? O que tu gostas na fotografia? 

mariam: Eu sou muito curiosa e tenho muita raiva social, sabe? Acho que para essa raiva social, a fotografia ajuda na denúncia. A gente precisa mudar esse mundo de merda, a gente não pode ficar simplesmente sentada e dizer “ganhou Bolsonaro”. Eu vejo na fotografia uma ferramenta para a gente mostrar o que está se passando. Faço o mesmo hoje na escrita, faço um poema, uma crônica, crio uma personagem e faço ela falar. Entendo que o papel da arte é mostrar, ajudar a ver quem não consegue enxergar. Também, como hoje escrevo poesia, na época fotografava as nuvens.

Cheguei em Porto Alegre em 2001. Vim para o primeiro Fórum Social Mundial e  fiquei. E fui ficando… Então, minha vida está atravessada pela política, pelo que há de ser dito e feito. Eu já era ativista feminista, então eu fotografava o movimento de mulheres, de lésbicas, eu estava sempre com a câmera. Quando cheguei aqui, me assumi ARTivista, unindo o ativismo com a arte. Comecei a participar do grupo Nuances e a gente fez um primeiro trabalho sobre visibilidade lésbica, nessa época mal se falava do tema. Fizemos um folder e utilizamos fotos que eu já tinha e outras que fiz especialmente para a ocasião. Eram os anos 2002, 2003. Ainda era muito difícil se visibilizar, então a gente teve que trabalhar com modelos, porque as lésbicas ainda não queriam se mostrar. Se hoje, em 2019, ainda é difícil, imagina naquela época!

Eu sempre estive com movimentos sociais, durante cinco anos estive próxima do MST, especialmente com as mulheres. Fiquei fotografando nos acampamentos, assentamentos,  manifestações e, mais tarde, dando aulas.

N: Aqui no Brasil?

M: Sim. Eu já dava aulas em Buenos Aires, mas aqui eu dei aulas também na Palavraria, que era uma livraria no Bom Fim, também em sindicatos e dentro do MST.

N: Tu enxergas algum machismo e discriminação de gênero, tu que tem esse projeto com as lésbicas dentro da fotografia? No meio fotográfico?

M: Faz tempo que não estou no meio fotográfico, mas, certamente que tem machismo sim! E muiiiitoooo. Já briguei horrores com os machos dentro de grupos, na internet. Tô me lembrando agora de um grupo, as briiiigas que a gente tinha quando eu dizia que era lésbica. Aí, pronto, piorava tudo. Era machismo, era fascismo… Mas, voltando ao mundo presencial, no ano passado, depois do assassinato da Marielle, eu estava em Buenos Aires e estava acontecendo uma manifestação de denúncia. Aí encontrei com um fotógrafo que conheço desde os 17 anos. Fazia um tempo que a gente não se via, né, só encontrava ele na rua, às vezes quando estava lá, na Argentina. A gente se deu aquele abraço e depois eu perguntei se estava sabendo da manifestação. Ele, meio estranhando… começou a falar umas coisas desconexas e bem machistas, sabe?

Por isso, eu acho tão importante vocês terem um grupo de mulheres fotógrafas, porque é necessário a gente se apoiar, estarmos juntas, mais ainda agora, com este governo e esta conjuntura social. Eu, aqui em Porto Alegre, organizo o Sarau das minas. É também um espaço onde as mulheres | lésbicas podem falar, se encontrar nas imagens, nas  palavras, nos abraços.

N: Por eles a gente nunca vai chegar a lugar nenhum. Bom, tu já disseste que é feminista, ativista e o que tu entendes por feminismo?

M: Primeiro, o feminismo é ter consciência da opressão patriarcal. O que significa o patriarcado? O patriarcado é um sistema de domínio que já dura mais de dez mil, quinze mil anos, não se sabe ao certo. Então o feminismo o que seria?  É ser consciente dessa opressão e querer mudar. Mas mudar não só a si mesma, senão ao coletivo das mulheres, entende? Se tu não estás num grupo com outras e tu não contagia e tu não és contagiada, não adianta. Esta é uma conclusão à qual estou chegando depois de muito pensar sobre isso.

Agora, conversando contigo, estava vendo essa imagem, uma mulher pelada com o rosto coberto ….

N: Não é nossa essa imagem

M: será que uma das possibilidades de ter a cabeça coberta é que muitas de nós poderíamos ser essa mulher? Então é isso, quando a gente tem uma imagem muito nítida de Fulana de Tal, tem um modelo, diferente de ter uma referência. Num modelo tu tem que seguir e ser como a fulana de tal, agora, quando tu tem referências e tu vê que Fulana não se depila, a referencia fala em pluralidade, em opções. Mas não é que tu tem que ser igual a ela, ninguém vai ser mais ou menos feminista por se depilar ou deixar de se depilar.

N: E tu chegaste a usar esse teu feminismo e ativismo nas tuas imagens? Nas fotografias? 

M: Eu sempre fotografei desde o feminismo, assim como escrevo. Eu vivo desde o feminismo. Minha fotografia sempre foi politizada. Conforme fui crescendo e entendendo, eu fui me dizendo radical. Mas, veja bem, as pessoas utilizam a palavra radical como extremo, eu utilizo ela desde sua etimologia.  Ser radical é a coisa mais linda do mundo. É tu ir às raízes para mudar. A gente não nasce radical, a gente se torna. Precisamos parafrasear a Simone de Beauvoir (risos), fazer um trocadilho. A gente se torna à medida que vai conhecendo,  vendo. Dentro do movimento há muitas mulheres que se lesbianizaram como consequência de serem feministas, de conhecer, de entender o feminismo. Vivemos no Brasil que é o quinto país em violência contra nós, mulheres | lésbicas. Vamos continuar dormindo com o inimigo?  

N: Tens algum site ou Instagram com teu trabalho?

M: Eu sou de outra geração. Eu tinha Flickr (risos), mas faz uns 5, 7 anos que não alimento ele, mas tem álbuns ali e no meu Facebook.

__________________________________

Contato: @mariampessah

Facebook

Flicker_marianapessah


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s