#mulheresquefotografam // Francine Fischer

Meu nome é Francine Fischer, eu tenho 28 anos, moro aqui em Porto Alegre. Estudo por conta, não fiz nenhuma faculdade, só uns cursos.

Nítida: Como tu começaste a fotografar e por que tu começaste a fotografar?

Francine: Eu comecei a fotografar em 2008. Sai do colégio e fui procurar alguma coisa pra fazer e daí fiz um curso na UFRGS em 2008 e fui fazendo alguns outros cursos e a partir daí comecei a fotografar por hobby até que começou a virar trabalho, consegui alguns clientes, e desde então fotografo tanto por trabalho como também por hobby. Profissionalmente fotografo há 10 anos.

N: Tu trabalhas com o que profissionalmente?

F: Eu trabalho com famílias e eventos sociais, todos os momentos especiais da família, desde casamento até o nascimento do filho, e a partir do nascimento eu acompanho os meses de crescimento do filho até primeiro aninho e fico com a família por anos. A primeira família que eu fotografei foi em 2012 e eu tô até agora registrando.

N: E por que tu fotografas? O que tu gostas na fotografia?

F: A fotografia pra mim, eu meio que separo, que são dois temas né, o profissional, que são as famílias, e as coisas que eu gosto de fotografar pra mim, tô sempre fotografando com o celular, gosto muito de fotografar com celular e eu meio que separei assim. Quando eu pego a câmera, a DSLR, eu penso muito em trabalho. Parece que eu não consigo separar assim.  Quando eu pego a câmera me vem trabalho. Agora quando eu tô com o celular, alguma câmera menorzinha, daí já não me vem trabalho, me vem hobby, e daí eu fotografo coisas completamente diferentes, que é fotografia de rua, viagens, coisas pessoais, coisas tipo planta, coisas que não tem nada haver com meu trabalho. Eu gosto de fazer as duas coisas, mas me dá muito prazer fotografar coisas que não tem nada haver com pessoas.

N: Mas tu fotografas sempre? Seja por hobby ou trabalho?

F: Sempre. Eu tô fotografando todos os dias. Eu tô andando de bicicleta, eu paro e fotografo alguma coisa.

N: Tu tens algum projeto pessoal ou artístico em fotografia?

F: Tenho.  Eu tenho o coletivo, o Benedictas Fotocoletivo, que é um coletivo feminista onde eu encontrei algumas amigas, pessoas, com um objetivo em comum que é o feminismo e a fotografia. Então a gente juntou essas duas coisas que nos unem, que a gente se identifica e partir disso fazer uma fotografia mais política, do feminismo e tudo que envolve essa temática.

N: Por isso eu achei que tu também eras fotojornalista, por tu trabalhares no Benedictas.

F: Ah, sim. Algumas são, a maioria delas, somos 12 e cada uma é de uma área, mas a maioria é fotojornalista. Algumas têm a fotografia mais artística, cada uma tem seu olhar e daí a gente junta e faz um projeto massa assim, que tá sendo bem legal.

E o legal é que eu não conhecia ninguém ali, eu só conhecia a Maia. A Carol eu conhecia assim de vista, mas não conversava com ela, então ali a gente acabou se conhecendo, cada uma chamou uma, a gente tinha essa vontade de fotografar juntas, mas não sabia muito bem o que fazer. Todo mundo ali se identifica com o feminismo e gosta de foto e arte em geral, e a partir daí a gente se juntou e acabou virando muito amigas. Todo mundo ali.

N: Que nem o nosso, mais ou menos assim (risos)

N: E tu percebes discriminação de gênero ou machismo dentro do meio fotográfico?

F: Total (risos). Como eu faço muita fotografia social, casamento, formatura, então quando eu comecei lá atrás, há 10 anos, eu não tinha muita rede de apoio. Eu não conhecia muita gente da área, só conhecia homens. Quando eu entrei as únicas referências que tinham eram homens e as referências de mulher que eu tinha era de fotógrafa de bebê. Eu curto fotografia de família também e gosto de fazer foto de rua, mas eu gosto muito de fotografia social, eu me identifico muito, e não tinha, era dominado por homens, e daí nas formaturas tinha os grupinhos, o clube do bolinha, e parecia que todo mundo ali era muito bom e as mulheres, as poucas que eu via fotografando, tavam cada uma num canto, sozinhas, fazendo seu trabalho e os caras tavam todos juntos. Então eu pensei “ah, tá errado”, então daí eles meio que desdenhavam teu trabalho, se eu fosse conversar com algum homem, eu sempre tive essa sensação de que eles queriam me ensinar alguma coisa, eu ia falar sobre  alguma coisa e eles  meio que falavam a mesma coisa que eu tava falando, só que com outras palavras, como se entendessem mais.

Eu tenho vários casos na fotografia social de machismo .

Teve uma vez que eu tava fotografando uma formatura e eu tava fazendo freela pra um fotógrafo, porque ele ia fotografar três formandas e ia precisar de mais dois fotógrafos.

Daí ele chamou um amigo meu e ele me indicou pro fotógrafo e fomos nos três lá. E daí o cara tava com o flash virado pro rosto de uma pessoa e eu falei “olha amigo, vira o flash pra não pegar no rosto”, e daí ele deu um tapinha nas minhas costas e fez aham aham. E não virou o flash.  Então tá, ele que vai trabalhar mal então. Não quis me ouvir por eu ser mulher. Então eu notei isso muito forte, porque com esse meu amigo eu não via essa relação. Tanto que numa conversa de nós três, sobre equipamento s, ele sempre olhava pro meu amigo, ele não olhava pra mim, até porque eu sou baixinha, então tu sempre tem que se impor pra ser notada. Então tem esse caso que me marcou muito.

Teve vários casos, mas tem esse outro que foi num casamento. Minha equipe, eu, a pessoa que faz o vídeo, o meu segundo fotógrafo, e daí sempre vinham falar com ele, pra saber alguma coisa, e ele sempre tinha que dizer que não era com ele, é com ela, ela que sabe (risos). Pediam informação pra ele, como se ele que fosse o dono da equipe. Não, a dona da equipe é quem foi contratada que foi a Francine Fischer Fotografia.

E a gente tem que rir assim né,  mas são pequenas coisinhas que vão te irritando no decorrer do teu trabalho.

N: Às vezes eu trabalho com um amigo meu, ele faz a luz, então nem tá com a câmera na mão, e as pessoas vão falar com ele.

F: É né. Ele nem é o fotógrafo, ele o assistente .

N: É muito na cara (risos).

F: Tem também fotógrafos que tá, são bons, mas não são tudo isso, e a autoestima é muito alta, então parece que as minas com quem eu converso, todas elas são muito boas, mas não enxergam quão boas elas são, e quando elas começam a perceber que são boas, ficam naquela de achar que estão se achando, de será que tô sendo arrogante. Não, tu tá percebendo aquilo que tu é, e tu é boa. Enquanto os caras não tem essa preocupação. Se eles acham que são bons, então vão falar que são bons, e todo mundo vai acreditar, mesmo eles não sendo bons. Eu vejo muito isso.

N: Bom, se tu te consideras feminista, e eu já sei que sim, então o que tu entendes por feminismo?

F: Com certeza! E essa pergunta é difícil. Quando eu dei o estalo de me ver feminista foi de eu entender  que eu sou boa, não sou pior por ser mulher sabe. Porque existe essa relação de poder entre homem e mulher  e a gente não tinha antes esse apoio, a gente só via homens fotografando, então a gente passou a falar pra outra que ela é boa, e a gente cria essa rede de apoio, porque se a gente não se apoiar, não se ajudar, a gente não consegue. Se sozinhas a gente não consegue, a gente precisa se apoiar uma na outra. Eu acho que o feminismo tem muito disso assim, de a gente se apoiar, de se empoderar e tal, porque eles são muito unidos. Dentro do campo profissional, o feminismo me ajudou a ver o quanto eu sou boa.

N: E ter o coletivo ajuda muito né? Ter outras mulheres fotógrafas?

F: Nossa, muito. O Benedictas me ajudou muito nessa questão também de a gente se ajudar e trocar. Tem muita troca e também tem outros grupos de fotografia, tem o grupo de fotógrafas que fazem social, o grupo das fotógrafas que fazem família, então a gente tá sempre criando . Ah, e uma coisa que me fez conhecer muita gente e me fez conhecer a Maia aliás, foi quando eu tava num grupo de fotografia, era o único grupo de fotografia que tinha na época, e daí um cara chegou e falou que precisava de alguém pra fazer assistência pra ele, mas tinha que ser homem, porque tinha que segurar tripé e tal e daí, “ah, como assim!!! Eu também consigo segurar um tripé”. E a partir dali eu criei um grupo  com uma amiga, um grupo no Facebook, o fotografia das minas, e a partir dali eu conheci muita gente. Eu falei com todos os fotógrafos que eu conhecia e pedi pra eles me indicarem mulheres que eles conheciam, porque eu não conhecia muita gente, e eu queria colocar nesse grupo.

A partir de uma coisa veio outra e foi criando essa rede, se fortificando. Hoje o grupo não tá ativo mais, porque o Facebook deu uma morrida, mas o pessoal que eu conheci ali eu falo até hoje, e agora a gente sabe quem são, por isso que é massa vocês fazerem esse projeto, pra reunir e mostrar quem são né. Qual o rosto dessas mulheres.

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Contato: @francine.fischer

@benedictasfotocoletivo


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