#mulheresquefotografam // Thayanne Tavares

Meu nome é Thayanne Tavares, eu tenho 33 anos, vim de Bélem, estou aqui em Porto Alegre por causa dos estudos, moro aqui no centro mesmo e estudo Antropologia.

Nítida: E como tu começaste a fotografar e por que tu começaste a fotografar?

Thayanne: Necessidades. No mestrado, eu vi que as minhas imagens foram feitas muito aleatórias, mais no sentido de querer arquivo, dos momentos que eu vivenciava com as meninas, e não tinham qualidade. Hoje olhando, muita coisa sem qualidade, umas estouradas, outras meio assim, mas na hora de colocar na dissertação eu consegui romper com essa ideia de arquivo e pensar enquanto narrativa. Então apesar de as imagens não serem tão adequadas, tão boas, no texto eu meio que me redimi pensando elas de outra forma e eu achei que seria importante meio que estudar um pouco mais pra tese, pro doutorado, porque já que eu vou continuar trabalhando com imagens, eu não poderia deixar esse buraco novamente pra tese.

N: Tu tens algum trabalho mais pessoal com fotografia, mais artístico ou serias mais pra tese mesmo?

T: Não, eu sempre tive vontade de aprender assim, independente de mestrado, doutorado, eu sempre tive vontade. Nunca tinha dinheiro pra comprar equipamento e tal, com a bolsa eu acho que já me ajudou muita coisa e tem sim, tem. Tem uma questão pessoal aí de aprender mesmo, eu gosto de experimentar várias coisas, então eu acho que dá pra pensar nisso também, de não só meio que ter só as imagens de momentos legais, mas também romper com isso, ver cidades e pessoas de outra forma através da fotografia.

N: Tu estás gostando de fotografar?

T: Eu tô. Eu tô gostando. É uma coisa nova assim, de ter que lidar com o outro, pessoas que tu geralmente não conhece, é um aprendizado.

N: Faz quanto tempo que tu começaste a fotografar?

T: Ah, depende (risos). Com a máquina desde que eu comprei, que foi no ano passado. Tem pouco tempo, acho que deve ter menos de um ano. E outras compactas e assim, já há muito tempo, mas totalmente sem pensar em nada. Aquela foto de intenção só de memórias, não de pensar em composição, pensar em luz, de eu olhar, tentar ter um olhar mais técnico no caso.

N: Tu percebes algum machismo e discriminação no meio fotográfico? Não sei se tu tens muito contato com o meio fotográfico, mas podes falar do meio da imagem mesmo?

T: O meio fotográfico, o único que eu tive contato foi de um curso.  Pelo curso eu já tive uma ideia de como funciona a cena da fotografia, que é muito parecida com o grafite.

N: Qual o curso?

T: Um de fotografia de rua. E daí pela fala do próprio fotógrafo que apresenta a cena da fotografia, todas as referências dele são homens. E quando tu pergunta se tem fotógrafas, ele diz que tem, mas quando apresenta é só uma e essa é estrangeira, sendo que em Porto Alegre tem muitas e em coletivos. Brasil também. Então tu vê que tem ali um certo olhar voltado pros homens assim. A referência de coisas boas é dos homens, no grafite também tem a mesma coisa.

N: Tu podes fazer uma comparação entre o meio do grafite e o meio da fotografia?

T: Referência. E outra cosia, os homens se referenciam e daí então eles criam uma rede dos melhores dos melhores e quando tu vê é só homem e eles não conseguem romper com isso. Tá em tudo, em todo lugar é assim. Por enquanto (risos)

N: Por enquanto (risos). Estamos tentando mudar!

N: E tu vês né, tu só fizeste um curso de foto e já estás na tua cara?

T: O suficiente. Eu fiquei assim, meu deus gente, como pode, não é possível.

N: O que tu entendes por feminismo e tu te consideras feminista?

T: Pois é. Hoje eu acho que posso falar que eu sou feminista. Há um tempo atrás eu era e não sabia. Mas aí, lógico, o feminismo é um aprendizado constante, que a gente tem que sempre refletir as nossas ações, refletir os nossos julgamentos, nossos olhares em relação às mulheres e principalmente em relação aos homens, aprender a problematizar isso e a relação de ambos. Mas eu acho que hoje eu me considero mais. Mais do que antes.

Eu consigo, assim, não tá ainda no ideal, de lutar em qualquer lugar, porque no meu caso tem a questão da raça e isso me impede muito de confrontar algumas situações que eu vejo que são necessárias, mas eu tô no caminho.

N: Tu podes nos dar um exemplo?

T: Tem um exemplo que eu fico me martirizando por isso na verdade. Foi em Bélem, eu tava no carnaval com mais duas meninas, uma delas é uma mana minha de coração, que é do meu coletivo de grafite, e a gente tava querendo entrar numa festa. Era um bloquinho e no final do bloquinho a festa continuava num lugar fechado e as duas meninas, uma vendia cachaça de jambu e a outra vendia docinhos, só que pra entrar nessa festa tu não podia ter nada de venda, nem dentro da bolsa, porque eles te revistavam na entrada. E daí a gente ficou na frente, bebendo um pouquinho e resolveu entrar na festa. Só que antes disso, eu encontrei com mais duas meninas que iam fazer show nessa festa e elas meio que colocaram a gente como equipe delas e colocaram a gente na festa por fora de uma fila quilométrica que tinha e a gente entrou como equipe. As duas cantoras entraram e eu fui atrás de boa, porque eu tava só com uma bolsa simples, e daí, quando foi as duas meninas eu me distanciei um pouco da entrada e fiquei meio que dispersa. E quando foram revistar acharam a cachaça e os doces . Só que foi um cara que abriu e o cara foi muito escroto. Muito escroto. E uma delas é muito militante, muito escrachada e quando acontece uma situação dessas ela grita, ela berra, ela xinga quem for e quando eu vi isso, quando eu percebi isso, eu não consegui reagir e eu me sinto muito mal até hoje por não ter feito nada. E o pior, ainda continuei na festa, elas não entraram na festa.

N: Mas tu achas que isso tem haver com a raça? Tu falaste antes…

T: Eu fiquei com medo. Na verdade, muita coisa me priva por causa disso. E aí nesse momento eu fiquei com medo e aí eu percebi que uma coisa influencia na outra. Elas são mais claras, não posso dizer exatamente que são brancas, porque no Para é uma coisa bem problemática, mas elas são bem mais claras do que eu. E eu acho assim, hoje analisando, eu poderia ter apoiado de outra forma. Tá, beleza, esbravejando como cara talvez não, mas o mínimo era ter saído da festa.

N: Mas não adiantas carregar culpa também.

T: Pois é, e aí eu fico pensando nessas coisas assim. Foi um momento que ainda fica. Era pra eu ter feito o mínimo que era ter saído dá festa né. E aí depois, durante a festa, no palco mesmo, mais organizadoras, porque esse bloco o nome dele é rebucetei, então é um bloco feminista, e as organizadoras foram no palco e falaram que repudiavam as atitudes dos seguranças do local, que de certa forma não tinham envolvimento, porque os seguranças não foram contratados por elas, mas que elas repudiavam isso, que isso não fazia parte da política do bloquinho, que as mulheres tinham que se sentir seguras e respeitadas naquele momento, que o bloco era pra isso e aí tu percebe que era o local que era problemático. E elas não foram as únicas, foi uma questão que foi bem além assim…

N: Bom, eu sei que tu no grafite já tens um trabalho feminista, que é com mulheres, voltado pra mulheres. E tu achas que como poderia fazer isso com a fotografia também? 

T: Pois é, ainda não pensei exatamente nisso. Eu já tenho uma ideia assim. Eu tenho pistas assim né, mas eu ainda não parei pra pensar como. Eu pretendo meio que problematizar essa questão se eu tiver oportunidade de fazer imagens com as minhas interlocutoras, que eu não sei ainda se vai ser possível, talvez eu foque pelo desenho e daí tal, outra linguagem.

N: Tu podes explicar o que são as tuas interlocutoras?

T: São mulheres que são pintadas por grafiteiros. Essa pintura é chamada de pornobomb e é uma pintura bem específica do grafite, mas também  pouco conhecida por esse nome, principalmente porque é um nome que eu imagino que tenha sido criado lá no Pará, na cena do grafite em Bélem, porque eu ainda não ouvi esse mesmo termo em outro lugar. Então eu imagino que seja de lá, mas é conhecido como body graffiti. Se tu for pesquisar, tu encontra umas imagens bem semelhantes. E essas pinturas são nos corpos femininos nus em posições bem pornográficas e a forma como eles utilizam as imagens traz essa linguagem bem pornográfica, bem objetificada. Essas mulheres não são identificadas nas imagens, então na verdade eu quero saber um pouco mais sobre essa fala dessas mulheres, porque a fala dos homens eu meio que já tive uma ideia nas postagens que geralmente são feitas no Facebook ou em grupos de WhatsApp, que eu ainda não tive acesso, pois fica mais entre eles, mas no Face tem uma página secreta que eles postam essas imagens, então pelos comentários já dá pra ter uma ideia de como eles enxergam aquelas imagens. E como eu não vejo a fala dessas mulheres nessas mesmas postagens, eu acho importante também ter esse acesso e aí eu foquei a fala das mulheres. Além do que eu acho que também, meu orientador me provocou enquanto a isso, mas de assumir também uma escolha minha de não ser assediada, porque eu não quero ser assediada na minha pesquisa, então ele me pediu pra assumir e eu acho que vou assumir que isso também é uma escolha minha. Mas quando eu pensei nesse recorte, eu pensei primeiro nelas, porque eu vi pela ausência de falas, e depois eu parei pra pensar e, bom, é uma escolha até sensata, porque eu não quero passar por algumas coisas.

N: Sim, é, com certeza vai né.

T: Sem dúvidas! Até de a pessoa não lidar diretamente com isso ela é assediada, porque teve um caso de uma menina, essa cantora da festinha, ela é do Hip Hop e tal e conhecia alguns grafiteiros e parece que teve uma vez que ela entrou num estúdio e o cara meio que conhecia ela e chegou e falou assim: “Tu não quer fazer?” Isso do nada, sabendo que ela tem um relacionamento super antigo com um brother dele, mas ele não teve problemas nenhum de falar isso, porque alguns tratam quanto arte, porque você vai ceder teu corpo pra mim fazer minha arte, só que né, não é né. E tem isso na fotografia também né.

N: Tem muitos. Fotos de nu feminino para “empoderar as mulheres”…

T: Sim, essência feminina. Eles conseguem captar a essência feminina num clique.

N: Só eles conseguem (risos).

T: Só eles (risos).

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Contato: @olhostaogigantes

@thay_petit


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