#mulheresquefotografam // Juliana Rizzieri

Apresentação:

Meu nome é Juliana, tenho 42 anos, moro em Porto Alegre e não estudei fotografia formalmente. Minha formação técnica não foi dentro da fotografia, mas de 2016 pra cá eu comecei a me interessar e estudar. Fiz workshops, cursos e em 2017 eu fiz EFA e desde então não parei de fotografar. Eu não trabalho comercialmente com fotografia, eu não vendo os trabalhos, eu faço mais pra mim e o que eu tenho feito mais de trabalho externo e publicado é um trabalho na ONG Projeto Camaleão. Eu sou voluntária lá e a gente faz bastante imagens pras  meninas que tem câncer, as alterações do corpo, imagens pro calendário do projeto e tal. Eu trabalhei na produção da primeira edição do calendário e na terceira edição e ano passado eu fotografei. Eu não tinha fotografado ainda, pois tinha medo. De formação eu sou médica, sou pediatra e trabalho com as duas coisas. Trabalho como médica e com fotografia.  

Nítida: E como tu começaste a fotografar e por que tu começaste a fotografar?

Juliana: Em 2016 eu tive câncer e em função da minha profissão eu não podia mais trabalhar, eu tive que ficar afastada do trabalho durante o período de tratamento, da quimioterapia e tudo mais. E eu nunca tinha ficado parada durante muito tempo. Eu sou formada há 20 anos e o máximo que eu tinha ficado parada era 15 dias de férias, duas vezes ao ano. E então eu me deparei com uma situação em que eu tinha que ficar parada uns 10 meses, afastada do trabalho e sem saber muito bem o que eu ia fazer com esse tempo que eu tinha. E aí o meu marido me deu de presente cursos iniciais de fotografia, porque sempre que a gente viajava, saia de férias, as fotos ficavam ótimas, pois ele tem um olho muito bom pra enquadramento e tal e as minhas ficavam péssimas, cortava a cabeça, ficada sem foco, era um horror e aí ele disse pra mim, já que eu não ia trabalhar, não ficar em casa, buscar fazer alguma coisa e me deu os cursos de presente. E eu comecei a fazer e entender que a fotografia é muito mais do que só a foto em si. Eu percebi que eu estava sofrendo várias alterações no meu corpo e eu era muito fotografada na turma, justamente por ser diferente, estar sem cabelo…

N: No curso de fotografia?

J: Isso, no curso. As pessoas me fotografavam muito por causa disso. Aquelas fotos roubadas e tal. Eu percebi que eu acabava saindo em um monte de foto e aquilo ajudou. Me enxergar naquelas fotografias me ajudou a reconstruir a minha identidade que tava super quebrada naquela situação né. E eu pensei, a partir daquilo, que puxa, eu podia devolver isso de alguma forma, sabe? Eu tô passando por uma situação super difícil, ok, mas eu tava cheia de privilégios. Por ser médica, eu conhecia muita gente, eu tive muitas facilidades. Desde consultar com as pessoas até começar o  tratamento mais rápido e me incomodava de saber que isso tava acontecendo comigo, mas que com a maioria das outras pessoas não é assim. E eu queria fazer alguma coisa pra ajudar as pessoas a passar por isso de uma forma melhor e menos sofrida, mas eu não sabia muito bem o que fazer, porque eu não podia pagar exames, pagar tratamentos ou tentar facilitar o acesso delas, eu não tenho esse poder. Foi aí que eu entendi que dentro da fotografia talvez eu pudesse fazer alguma coisa nesse sentido. Então enquanto eu estava em tratamento eu conheci essa ONG na qual eu sou voluntária hoje e pensamos na criação do calendário, que foi uma experiência incrível, pois eu consegui enxergar o que eu tava passando em outras 12 mulheres. E no ano seguinte mais 13 mulheres. E no outro mais 13 novamente. Então eu entendi a fotografia como sendo uma ferramenta pra eu conseguir devolver pro mundo, pra sociedade, toda a sorte e todas as coisas boas que aconteceram pra mim. 

N: E nessa ONG tu fotografas meninas, mulheres, crianças…

J: Quem tiver. Na maioria das vezes são mulheres, pois são quem mais procura. Os homens dificilmente procuram ajuda né, e as mulheres têm mais facilidade de aceitar a vulnerabilidade e aceitar que as coisas não tão boas e que tu precisa de amparo. E crianças a gente quase não trabalha, porque existe o Instituto do Câncer Infantil, que é uma instituição super forte, então não tem sentido a gente desenvolver um trabalho paralelo ao ICI. É mais fácil a gente trabalhar junto com eles. A gente faz algumas ações no ICI, nenhum trabalho com fotografia ainda com as crianças, mas temos alguns projetos em andamento pra eles e eu acho que vai ser super bacana. Criança eu só fotografo minha sobrinha, mas eu também fotografaria crianças  sem problemas (risos).

N:  No meio fotográfico, tu percebes alguma discriminação de gênero, machismo?

J: Sim, bastante. E é muito engraçado que eu fui perceber a discriminação de gênero dentro da fotografia. Eu não tinha essa percepção dentro da medicina. Pra mim foi chocante. Claro, talvez eu não estivesse atenta antes e depois quando eu percebi isso na fotografia foi que eu consegui ver na medicina. Mas me chama muita atenção essa questão, de que os grupos de estudo são sempre coordenados por homens e os referenciais que eles trazem são homens e tu te inscreve num edital e vai olhar o resultado e passam milhares de homens e uma mulher e tu vai olhar a comissão avaliadora e é predominantemente masculina e daí tu olha, por exemplo eu, que comecei em workshops, eu comecei a olhar pras salas de aula e era 90% de mulher, 10% eram homens dentro das salas de aula. E eu ficava pensando onde estão esses brilhantes? De onde essas pessoas estão vindo? Por que eles não estão na sala de aula? Estão aonde? Por que eles aparecem e a gente que tá ali estudando, lendo, se esforçando não aparece? 

Ali eu comecei a perceber alguma coisa. Comecei a ter uma percepção de incômodo com homem fotografar corpo de mulher. Isso começou a gerar um desconforto gigante. 

Eu, numa situação muito particular e muito individual, tava fazendo uma pesquisa pro projeto e fui pesquisar os fotógrafos premiados no Paraty em Foco do ano passado e um dos trabalhos, especificamente, é de um cara que fotografou mulheres de uma forma que me agrediu pessoalmente, pois ele só fotografou a dor daquelas pessoas e eu fiquei muito indignada com aquilo, porque ele fotografou só mulheres, praticamente nuas ou semi-nuas e aquilo era subjugação e eu fui ler o argumento do trabalho dele e fiquei mais furiosa ainda, pois é ridículo. Uma pessoa que nunca passou por aquilo, que não tem a menor ideia do que tá dizendo e fotografando isso. E nenhuma daquelas mulheres olhava para a câmera, sempre olhando pro lado. Eu duvido que alguma delas tenha gostado do resultado. E as fotografias provavelmente estavam impressas em tamanho gigante em um festival de fotografia onde circulam milhares de pessoas. Até agora eu não sei o que fazer com isso, mas eu sinto que eu preciso fazer alguma coisa. Na hora eu tinha vontade de mandar um e-mail pra ele e dizer olha só amigão, a gente precisa conversar. Tudo bem, pode ser que tua  intenção foi boa, mas tá errado. Não é assim que se faz. Não é assim que é legal. Tu não fez uma coisa boa pra essas pessoas. O que tu devolveu pra essas pessoas? Que voz tu deu pra essas pessoas? Tu ofereceu uma oportunidade pra elas? Não!

Eu fui perceber essa coisa tóxica dentro da fotografia. Eu não tinha essa percepção dentro da minha profissão.

N: Tem umas coisas que a gente olha e não acredita que eles conseguem fazer.

J: Sim e eu fiz um trabalho com cicatrizes,  meu primeiro trabalho da EFA foi com cicatrizes, porque é uma coisa muito presente na minha vida. Eu coleciono cicatrizes. E eu não fotografei as minhas, fotografei de outras pessoas e em nenhum momento eu quero dizer que meu trabalho era melhor do que o dele, mas a forma que eu fotografei a cicatriz daquelas pessoas, todas amaram, gostaram e se sentiram representadas, acolhidas. Elas estavam contando a história delas e não estavam sendo o sujeito da história de outra pessoa, contada por uma pessoa nada haver e daqui a pouco nem era a história que elas queriam estar contando.

N: Seguindo nesse assunto, tu te consideras feminista? O que tu entendes por feminismo?

J: Sim, me considero e o que eu entendo por feminismo é justamente a gente conseguir colocar a nossa voz na rua. É a gente conseguir falar e não ser interrompida. É a gente conseguir falar e ser entendida no que estamos falando. É a gente conseguir expressar o que pensa, produz, trabalha e todas as coisas que a gente faz e são boas. Pra mim isso é o feminismo. E eu demorei muito tempo pra me encontrar dentro desse movimento feminista porque eu não me identificava com muitas coisas que eu via acontecer e hoje eu entendo que talvez algumas correntes não sejam pra mim, mas que também são necessárias e eu acho que mais importante do que eu dizer que  eu não sou feminista assim é eu abraçar aquilo ali também e apoiar e entender que sim.

Precisamos entender que o feminismo não é não se depilar, não usar sutiã. O feminismo é a gente se colocar enquanto ser humano, como indivíduo. Não importa se é homem ou mulher, tu tem as mesmas capacidades, tu é tão inteligente quanto, tu tem opiniões tanto quanto. Não tem porquê minha opinião ser menor.

E é uma transformação que eu vejo que tem acontecer dentro das casas. A gente tem pequenos machismos institucionalizados dentro dos lares e que a gente não se dá conta. Meu marido não se dá conta. E desde que eu comecei a me aproximar mais dessa ideia, eu tenho conseguido trazer discussões pra dentro da minha casa também, que daqui a pouco ele nem ia cogitar, porque a gente vive dentro de uma sociedade que pensa dessa forma e pensa por um viés masculino.

Eu entendo o feminismo assim, como sendo um caminho por onde a gente vai conversar, falar e colocar ideias que a sociedade não tá acostumada porque ela não foi desenhada pra isso, ela foi desenhada pra ser masculina.

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Contato: @ju.rizzieri

@ju.rizzieri_photoarte

jurizzieri.com.br


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