No desenrolar, de Natalia Schul

 

Exposição “No desenrolar”, de Natalia Schul, na Galeria Ecarta.

No ambiente de entrada, ao lado do caderno de assinaturas, cartões postais com instruções / dicas para vermos e interagirmos com a exposição. Na parede oposta, uma fotografia de um corpo feminino com uma marca de VÍSIVEL na pele. Na sala à direita, grupos de fotografias que passam a dialogar entre si, ao mesmo tempo em que dialogam conosco, e que possuem um belíssimo equilíbrio no tom das cores. No outro ambiente, um pouco menor do que o anterior, as fotografias coloridas se misturam com outras em preto e branco e dividem o espaço, também, com duas televisões – com imagens também em preto e branco.

A breve descrição é da exposição “No desenrolar”, de Natalia Schul, que acontece na Galeria Ecarta (Porto Alegre, RS). A artista trabalha especialmente com a fotografia e o vídeo para fazer investigações do seu próprio corpo performatizado. Neste trabalho, segundo Natalia, existem três pontos especialmente importantes: 1) a relação do corpo com objetos; 2) a experiência/vivência do que acontece no momento em que ela está fazendo a performance – e, justamente por isso, é importante que seja com o seu próprio corpo; 3) a relação bastante íntima com referencias da história da arte.

As fotografias e vídeos são feitos e pensados especificamente para serem executados em frente a uma câmera. Tudo é planejado e pensado, mas com a consciência de que tudo isso pode mudar durante a execução. Escapar dos planos, fugir do controle, também não é um problema – pelo contrário, tratando-se de um processo, de uma experiência vivida naquele momento, é também esperado e acolhido.

Na exposição, são pelo menos quatro linguagens que interagem entre si. Fotografia, vídeo, performance e palavra. As palavras estão nos cartões-postais do início, que fazem instruções para algo que não precisa ser instruído – o que pode ser lido como uma brincadeira, uma ironia. Elas também podem estar como legendas nas próprias fotografias – fazendo igualmente uma ironia –, como também na pele da artista (com carimbos e até queimaduras do sol). Os vídeos não possuem áudio, mas uma escrita que os acompanha: ao lado de cada uma das telas há uma plaquinha com a descrição do que está sendo feito – que foi uma instrução da artista para ela mesma, importante no processo do trabalho, e que aqui é compartilhada com o público.

As fotografias coloridas possuem uma harmonia singular e sugerem algo interessante: apesar das cores claras e suaves, elas retratam, muitas vezes, situações fortes e – aparentemente – doloridas. Isso fez com que alguns espectadores perguntassem à artista: “Mas, afinal, isso não dói muito?”; e ela nos conta que não, que o processo pode se assimilar com o das crianças, quando estas experimentam algo desconhecido e vão até o limite da dor, até aquele ponto que não sabiam que viria e, com isso, acumulam experiência para as próximas vezes.

Uma fotografia que pode não ter sido dolorida, mas provavelmente desconfortável por um longo período após a captura é a “Fotossensível”. Nela, a artista ficou tomando sol, durante algum tempo, com os dizeres VISÍVEL em seu abdômen. A imagem final é da marca na pele, já queimada. No decorrer da exposição é possível encontrar uma certa consequência desse trabalho: algumas fotografias da artista retirando a pele, depois da queimadura. Mas, voltando ao ponto crucial da foto, se trata praticamente de um jogo entre as questões do que é visível através da luz. Ou seja: que é fotossensível. Segundo a artista, está totalmente ligado ao processo fotográfico – o qual registra a imagem sobre uma superfície sensível por meio da exposição à luz.

Ainda sobre a “Fotossensível”, Natalia diz que não se pode esquecer da referência na obra Reading Position for Second Degree Burn (1970), de Dennis Oppenheim. Outras fotoperformances e vídeos também fazem relação direta com o trabalhos de outros artistas, principalmente Francesca Woodman e Hans Bellmer. As referências advindas da história da arte fazem parte de um ponto importante para o processo de trabalho e pensamento da artista: “acredito que faz parte de ser artista, especialmente no mundo contemporâneo, estar ciente do legado do que já foi criado, das imagens que conhecemos e do que nos interessa e instiga a criar”.

No Desenrolar, assim como a maioria dos bons trabalhos em artes visuais, possui diversas facetas e camadas para serem exploradas. Aqui foram apresentados apenas alguns aspectos, dentre muitos outros que poderiam ser analisados e aprofundados. Um deles, por exemplo, seria o fato de ser um corpo feminino que ali está. O corpo da artista, que é uma mulher. Uma mulher que carrega o peso histórico de construção social e cultural por ser mulher. E esse peso é enorme e cheio de significações. Mas essa conversa certamente seguirá e falaremos mais sobre isso, certo?

Natalia Schul, “O que sobra”, 2016
Natalia Schul, “O ato de olhar”, 2017
Natalia Schul, “Corpo – lugar”, 2017
Natalia Schul, “Fotossensível”, 2017
Natalia Schul, “Modos de ver”, 2017
Exposição “No desenrolar”, de Natalia Schul, na Galeria Ecarta.
Exposição “No desenrolar”, de Natalia Schul, na Galeria Ecarta.

Sobre a artista e outras exposições

Natalia Schul vem de uma família de artistas e, apesar de ter se aventurado por outras áreas, acabou seguindo a “tradição”. Foi na graduação em Artes Visuais (UFRGS) que ela encontrou as ferramentas para expressar-se artisticamente; ou seja: passou a ter intimidade com a fotografia e o vídeo. Ela atua principalmente com fotografia encenada, fotoperformance, videoarte e livro de artista. Participa de exposições coletivas desde 2013, das quais destacam-se “Novas Poéticas” (em 2015 na UFRJ e em 2016 no Museu do Futuro, em Curitiba) e “Fotos Contam Fatos”, na Galeria Vermelho (São Paulo, 2015). Possui um fotolivro publicado pela editora Azulejo Arte Impressa, em 2015, intitulado Presença Ausente. No ano de 2016, foi indicada ao X Prêmio Açorianos de Artes Plásticas – Destaque em Fotografia.

Além da exposição No desenrolar, na Galeria Ecarta, Natalia realizou outras mostras individuais importantes: Outra Imagem pelo 4º Prêmio do Instituto Estadual de Artes Visuais – IEAVi, no qual foi premiada em 2016, e Em seu lugar, no Paço dos Açorianos (2015). Todas elas realizadas em Porto Alegre (RS), cidade onde a artista reside e trabalha.


Um comentário sobre “No desenrolar, de Natalia Schul

  1. Achei “O que sobra” perturbador, provavelmente por ter passado por um câncer de mama e ter tido um dreno colocado no meu corpo neste local por 20 dias achei a imagem triste e me deixou um terrível mal estar. Não gostei da exposição, aqui dita como divertida, não é divertido para quem passou por um câncer de mama desaconselhou. Em “Fotosensível” mais uma vez veio uma sensação horrível, em baixo das mamas o escrito “visível”, após a mastectomia você pensa e eu, sou invisível. Não acredito que a artista pensou em mulheres que tiveram câncer de mama, queria brincar e foi muito infeliz nas brincadeiras fotográficas. É difícil pensar em todos quando preparamos uma exposição, mas é legal fazer este exercício. E com isso não falo que deveria ter sido censurado, só que é um trabalho de mau gosto e perturbador, e que ela deveria repensar sua arte.

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