Nítida Entrevista – Mônica Zarattini

Entrevista realizada em 2016 durante o FestFotoPoA, com Mônica Zarattini, fotógrafa e pesquisadora.

N – Poderias se apresentar e falar um pouco sobre como começou na fotografia?

M – Meu nome é Mônica Zarattini. Eu iniciei com a fotografia no colégio. No meu segundo ano do colegial, eu tive uma aula de fotografia onde aprendi a revelar e a ampliar fotos, filmes preto e branco, em 1978. Eu me apaixonei e comecei a fazer cursos fora da escola, mas percebi que o hobbie era muito caro, então comecei a buscar trabalho. Eu tenho muito orgulho da minha primeira foto. Ela foi capa do jornal do Luiz Inácio Lula da Silva, mas ele não era Lula ainda, era presidente do sindicato Luiz Inácio da Silva. Foi uma manifestação lá no estádio de futebol Vila Euclides, onde os operários se reuniam pedindo Anistia aos presos políticos. Estava em plena ditadura. Então esta foto é um ícone para mim e, a partir daí, eu contatei os jornais de sindicato e comecei a trabalhar para eles porque os fotógrafos mais experientes, mais famosos, não queriam estar indo cinco da manhã fotografar panfletagem em porta de fábrica. Eles não queriam estar no sindicato quando a polícia ameaçava entrar e o Lula estava lá dentro. Então eram os horários em que eles não queriam trabalhar e eu trabalhava na madrugada, na noite e foi assim que eu comecei, fotografando para jornais de sindicato. E bom, entrei em história na USP, fiz meu curso de história, mas nunca abandonei a fotografia. Só fiquei afastada em uma época quando fui dar aula de história quando eu me formei, mas aquilo nunca saía de mim. E depois eu voltei, aí voltei com tudo, comecei a trabalhar no Diário Popular. O fotojornalismo para mim também era a história, uma maneira de eu registrar a história na hora. E aquilo me encantava, as reportagens me encantavam; eu tinha o jornalismo na veia. Comecei a trabalhar, fui contratada pelo Estadão onde fiquei por vinte e seis anos e meio. Saí de lá o ano passado (2015) e nos últimos nove anos eu fui editora de fotografia; uma experiência muito incrível para mim, pois me deu uma base muito grande. Fiz um mestrado na USP e agora faço doutorado, estudo um pouquinho da fotografia contemporânea.

N- Como é que você vê a atuação das fotógrafas mulheres hoje? E, se puder, fale um pouco sobre como era antes e se você percebe hoje uma diferença dentro do ambiente em que circulou, no caso, as redações.

M- Eu acho que um fato que tem que ser registrado é que na época em que eu entrei no Estadão não existiam praticamente mulheres na grande imprensa diária. O Hélio Campos Mello, hoje diretor da revista Brasileiros, era o diretor de fotografia que o Estadão tinha contratado para fazer uma mexida na equipe, modernizar. Os fotógrafos eram muito antigos, já estavam lá há trinta anos. Não que fossem ruins, eram ótimos, o Reginaldo Manente, Dionisio Pinheiro eram fotógrafos incríveis, mas esse não era esse problema, eles queriam era arejar. E o Hélio Campos Mello trouxe para equipe, nada mais nada menos, que cinco ou seis mulheres. Isso causou uma coisa muito incrível no mercado, aí a Folha também começou a contratar mulheres e nós começamos a trabalhar. Por exemplo, eu sou uma pessoa que gostou sempre de fotografar esportes e, realmente, na hora de fotografar o futebol, eu senti na pele isso, porque os meninos queriam fotografar. Os melhores jogos jamais eu ia fotografar, apenas os jogos que não eram muito importantes, mas as decisões, os jogos de seleção, eu tinha que brigar muito para ser credenciada. Então eu fazia, eu queria sempre ir e apostei muito nisso, mas é um ambiente que realmente eu tive que batalhar. Dentro de um campo de futebol a gente sofria muito machismo com relação aos xingamentos, a gente era muito xingada, principalmente na Vila Euclides, o estádio de futebol em Santos que praticamente o público fica colado aos repórteres fotográficos que ficam no gramado. Eles xingavam muito a gente porque não entendiam o que uma mulher estava fazendo dentro de um campo de futebol e, menos ainda, fotografando. No entender de muitos da torcida seria uma profissão masculina. Eu acho que a mulher realmente tem o olhar diferenciado e ela pode olhar de uma maneira diferente que talvez o homem não olhe determinadas coisas. Mas eu acho que todo mundo, tanto homem como mulher, tem o seu próprio olhar e pode ser tanto mais feminino tanto mais masculino; tanto mais delicado como não delicado e isso aí não é porque é homem ou mulher. Mas eu achei muito bom a gente ter sido inserida nesse mercado do fotojornalismo nessa época e acho que depois de lá para cá muitas mulheres foram contratadas, muitas freelancers. Agora eu vejo um retrocesso. Na imprensa atual tem muito mais homem do que mulheres. No próprio Estadão, se tiver uma repórter fotográfica, vai ser muito. Então eu acho importante sempre ter a presença de mulheres nas equipes.

N- E esse retrocesso, por que motivo você imagina que isso tenha acontecido?

M- Bom, eu vejo assim, a situação política atual é de retrocesso. Nós vivemos um retrocesso muito grande no nosso país. Está aí um golpe a luz do dia onde tu tiras uma mulher eleita democraticamente como a Dilma. Acho que o fato dela ser mulher pesou muito, se fosse um homem talvez não tivessem feito esse linchamento moral. Hoje você tem um ministério que está sendo formado por um governo não legítimo que só tem homem, então nós estamos vendo um retrocesso evidente na situação atual. E esse processo vem de uns tempos para cá, pode reparar a Argentina, essa questão do ódio racial, do ódio as minorias gays… São coisas que a gente avançou, conquistou e parece que agora esses direitos estão sendo retirados. Até a coisa da classe social da gente ter conquistado, muita gente pobre está andando de avião e tem pessoas que não aceitam isso. Então eu vejo que os jornais tiveram um papel muito importante nessa disseminação de um ódio que está sendo criado. Um ódio a tudo isso que eu falei, as mulheres, as minorias, um ódio racial, às vezes, coisas assim que o fato da gente ter um Facebook, uma rede social, faz você perceber que isso existe e está se aflorando, está se demonstrando. Então quer dizer, isso estava escondido, eu pergunto: o Brasil é um país lindo, tropical, onde não se existe preconceito de cor, preconceito com as minorias? É a imagem que foi vendida por uns tempos e parece que agora não. Então eu acho importante o empoderamento da mulher em relação a todos os setores, não só no jornalismo, não só na fotografia. E o que está acontecendo é um retrocesso muito grande e isso me entristece. Aqui em Porto Alegre eu vi muitos portfólios de mulheres, muitos portfólios de homens e vejo que a fotografia está aberta a todos os gêneros, a todo tipo de pessoa porque você pode expressar sua arte através da fotografia, então porque não dar chances, oportunidades iguais? É só isso que eu questiono. E eu acho que isso que está acontecendo no Brasil, na política, vai se refletir no dia a dia e, cada vez mais, isso tende a piorar se a gente não tiver uma postura de enfrentamento de querer estar presente, ter nosso espaço, manter a nossa condição como ser pensante e atuante.

N – Você falou que está fazendo doutorado e tem pesquisado mais a questão da fotografia contemporânea. Unindo com a questão da leitura de portfólio, existe alguma diferença na fotografia que a mulher faz?

M- A leitura de portfólio é uma coisa extremamente positiva porque tanto um como outro, todas as pessoas que se propõem a vir mostrar o seu trabalho para que outras pessoas deem opinião, essa pessoa ela já está tendo uma atitude muito positiva. Ela está com uma atitude em relação ao amadurecimento, a um crescimento. Tem muitos homens que fotografam com um olhar delicado, então não vejo essa diferença. Eu vejo mais a questão de você ter a oportunidade de ser colocada com a mesma oportunidade que o homem. Eu não vejo essa coisa do olhar, eu vejo muitos homens que tem um olhar muito delicado, uma fotografia fina, requintada, linhas pequenas, uma estética… Uma “estética feminina” e a “estética masculina” não vejo isso, não vejo. Eu vejo a possibilidade de oportunidades. É isso que não acho se deva admitir que um homem possa e uma mulher não possa. Isso para mim é a questão principal. E aqui eu vi muitos portfólios de homens e mulheres e não posso te dizer que existe o olhar feminino e o olhar masculino, acho que os olhares são a partir dos repertórios que cada um tem. Repertório ideológico, repertório cultural, repertório de vida, repertório político. De toda a vivência que a pessoa tem e ela coloca no ato da fotografia

N – Você acha que é preciso o feminismo no cenário atual?

M- Eu acho sim, acho importante o feminismo. Eu sou de uma época em que não existia a força que existia hoje dos coletivos feministas, do pessoal da idade de vocês. Eu vejo isso nas minhas filhas, se organizando e acho muito importante que a mulher se coloque e daqui para frente vai ser cada vez mais essa questão da mulher ter a mesma oportunidade que o homem. Eu acho fundamental em todas as áreas. Então o feminismo tem sim que ser aprofundado, tem que ser discutido e na questão do fotojornalismo que eu vejo, como eu disse anteriormente, eu acho que os jornais tão contratando menos mulheres. Mas assim, os jornais também não estão contratando ninguém, a verdade é essa, então eu acho que é o momento mesmo da gente se organizar, colocar nossas opiniões e eu acredito muito que a mulher ela tem a mesma capacidade que o homem e tem que ser remunerada com o mesmo valor, ela tem que ter o seu lugar exatamente como o homem tem e eu não admito que um ministério possa ser só de homem e não tenha nenhum negro. Eu acho uma coisa muito esquisita para o nosso país.

N – Tem alguma mulher que tu se sente inspirada ou que tu indicaria

M – A Nair Benedicto é uma grande inspiração não só como pessoa, mas como fotógrafa. O fato de ela ter, junto com outras pessoas, inaugurado uma agência fotográfica e ter libertado você de ter que trabalhar com a linha editorial do jornal. Ela esteve muito a frente do seu tempo, pois montou uma agência em 1970 e fotografou muitas questões não só do gênero, mas da mulher. Ela fotografou também questões de movimentos populares, festas populares. E você ter uma agência onde você é dono do seu negativo, da sua pauta e ter essa independência…. Para mim é uma pessoa que me inspira como profissional. Lembrando também Hildegard Rosenthal que foi a primeira mulher fotógrafa como fotojornalista que tivemos no Brasil, apesar de não ser brasileira. Foi uma mulher muito a frente do seu tempo. Ela saía com as máquinas enormes de fole para fazer reportagens com muita coragem. Dormia nos lugares, nos sítios quando fotografava as fazendas de café e fazia as matérias. Então são pessoas, mulheres, que estão a frente de seu tempo, pessoas de vanguarda e que me inspiram muito. A fotografia da Graciela Iturbide também, no México. Tem um número de fotografas enormes para a gente se inspirar e assim é hoje em dia também na fotografia contemporânea.

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