Jornal de Borda #3

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por Nítida e Sofia Bauchwitz

“As lésbicas não são mulheres”, conclui Monique Wittig no ensaio “O pensamento hétero” (1980). O termo mulher, e tudo o que implicaria ser mulher, está inserido em uma sociedade heterossexista, ou seja: a imagem dita feminina foi construída nas suas relações (de submissão, muitas vezes) com os homens. A lésbica não se enquadra ao conceito pelo simples fato de não manter relações heterossexuais e, portanto, fica à parte desse sistema.

As ideias de Wittig vão ao encontro dos estudos de Adrienne Rich, que, em seu ensaio “Heterossexualidade compulsória e Existência lésbica” (1982), faz uma ampla crítica à heterossexualidade como instituição obrigatória. A autora acredita que o ser hétero é colocado como condição inata e, sendo assim, torna-se um meio de assegurar o direito masculino de acesso físico, econômico e emocional às mulheres. Segundo Rich, “a negação da realidade e da visibilidade da paixão das mulheres por outras mulheres […] tem representado uma perda incalculável do poder de todas as mulheres em mudar as relações sociais entre os sexos e de cada uma de nós se libertar”.

No final das contas, as mulheres que não estão ligadas aos homens, além de serem consideradas “antinaturais, desvios ou aberrações”, acabam sendo condenadas a uma devastadora marginalidade, muito maior que a de apenas ser do sexo feminino – condição que, por si só, já nos coloca em posição inferior, em posição de objeto.

Para a reflexão em um contexto atual, é importante lembrar que os textos referidos acima foram escritos nos anos 1980. A partir disso, nós nos questionamos: em mais de trinta anos aconteceram, de fato, mudanças? A cultura falocêntrica continua dominando de diversas formas; e ser lésbica, sair do sistema heterossexual, segue beirando o invisível e revela-se, ainda, um ato revolucionário.

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Quando um homem se expressa, ele está problematizando o mundo; quando uma mulher se expressa, sua obra assume um tom confessional. O homem, detentor do poder e do discurso normativo, é o Sujeito, e a mulher, o Outro. E que forma assume esse Outro? A loucura, a aberração, a histeria, a monstruosidade. A mulher assume o papel de monstro, ser folclórico e mitológico, figura maligna a ser combatida pelo guerreiro.

Esse mesmo monstro é o que se torna objeto de desejo. Como a sereia, monstro assassino, que foi sendo adornada até virar espuma no conto de Hans Christian Andersen. A representação do feminino, desde os primeiros movimentos pictóricos, segue arquétipos criados pela imaginação masculina. O espectador assumido é homem, heterossexual, e a imagem da mulher é projetada para agradar a ele, como tantos escritores descreveram em suas obras e personagens. Mas, se nos assumirmos como espectadoras da arte, que papel assumimos para que não sejamos apenas expectadoras? Em que pesa nossa crítica diante de nossa produção artística?

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*Texto originalmente publicado na Edição 3 do Jornal de Borda (2016) 

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