Notas sobre o 1ª Nítida Convida: O protagonismo da mulher no cenário nacional

Realizamos a primeira edição do Nítida Convida no dia 04 de junho. A ideia apareceu no ar entre uma reunião e outra e foi criando força até ser concretizada. Não é novidade dizer que faltam mulheres fotógrafas nos livros, galerias e festivais. Os números não mentem e basta uma pesquisa rápida para ver que ainda em muitos desses eventos aqui do Brasil mais do que 50% dos convidados são homens. As mulheres convidadas são nítida minoria, ainda que estejam desenvolvendo trabalhos fotográficos de qualidade tanto quanto os homens. Então resolvemos propor este encontro com o intuito de falar sobre nossas vivências no cenário fotográfico e artístico, nossas lutas cotidianas, impressões sobre o mercado, silenciamentos e invisibilidades.

História da Fotografia
O problema começa desde o princípio da história da fotografia. Como toda a história, ela é contada através do protagonismo masculino. Fala-se de Robert Capa, Henri Cartier-Bresson, Man Ray, mas não de Gerda Taro, Martine Franck e Lee Miller. A perspectiva se torna mais crítica quando pesquisamos as fotógrafas brasileiras. Praticamente não há mulheres citadas como atuantes na área até meados de 1960, quando, em sua maioria estrangeiras, começaram a aparecer.
As mulheres sempre fotografaram, tanto lá fora quanto aqui. Há registros de mulheres que trabalharam junto com fotógrafos, como o caso de Gerda Taro, porém a autoria das fotos ficavam sempre com os homens. Também há o caso da Princesa Isabel¹  que teve aulas de fotografia com Marc Ferrez e Revert, porém não se tem registros de nenhuma de suas fotografias. Não se trata de uma inexistência, mas sim de invisibilidade.
Esse assunto acabou entrando em pauta no encontro, pois fotógrafas e estudantes apontaram a ausência de apresentação de mulheres como referência na universidade e nos cursos de fotografia. A falta de pesquisas formais sobre mulheres na fotografia é o grande obstáculo que as estudantes encontram ao buscar referências femininas na arte. Algumas iniciativas individuais de pesquisa e compartilhamento das referências femininas no âmbito acadêmico já ocorrem em alguns lugares, como apontaram algumas professoras universitárias presentes no encontro. Essa tomada de consciência é um primeiro passo para uma mudança de perspectiva dentro do cenário fotográfico.

Mercado: Festivais, galerias, editais e publicações
No Brasil, percebe-se uma crescente movimentação no mercado fotográfico. Festivais e encontros surgiram nos últimos quinze anos, editoras e publicações independentes foram criadas com o intuito de discutir a fotografia.  É um mercado que, apesar das dificuldades, continua lutando para se manter em movimento. Porém, essa preocupação com o meio nem sempre se reflete em outras lutas essenciais.
Esta pauta era uma das principais do nosso encontro, pois é visível um sexismo no mercado fotográfico. Os homens ainda têm o protagonismo e dominam os espaços já consolidados, reproduzindo o modelo de uma sociedade hierárquica e desigualitária.
Sabemos que sim, há muitas mulheres produzindo. Um exemplo disso foi a reflexão do Coletivo Ágata² em que ao fim listaram várias fotógrafas que atuam em diferentes áreas.
Fernanda Grigolin³, fundadora e editora do Jornal de Borda, escreveu em texto sobre o encontro Arte e Feminismos no combate ao autoritarismo, devemos nos questionar: “Como fomentar e visibilizar a produção de artistas mulheres dentro de um lugar autônomo e também nos lugares tradicionais da arte e seus espaços de circulação; Como fazer perceber uma importantíssima questão: se um evento importante de arte não convoca, desde sua concepção à finalização, mulheres e negros artistas, ele está reproduzindo as hierarquias, as diferenças e as desigualdades. Está reproduzindo tudo o que queremos combater e transformar. E hoje é urgente transformar de fato!”

Assédio Moral e Sexual
Em março deste ano, circularam nas redes sociais denúncias de abuso e assédio sexual por parte de fotógrafos que utilizaram sua atividade artística como pretexto para isso. Infelizmente, esses atos são recorrentes para nós mulheres.
Nosso encontro contou com a presença de mulheres de diferentes áreas da fotografia que trouxeram relatos de algum tipo de assédio de fotógrafos – tanto sexual quanto moral. Muitos homens usufruem de seu reconhecimento profissional para oprimir colegas de trabalho, perpetuando a posição opressora em que os homens se encontram na nossa sociedade. Também não é novidade passar por experiências desagradáveis na universidade.
Declaramos nosso repúdio aos relatos que ouvimos e a todos os atos dessa natureza. Nos solidarizamos com essas mulheres e não nos calaremos diante de qualquer assédio que sofremos.

Corpo feminino
Por fim, uma última questão, também abordada no encontro, foi a erotização do corpo feminino e como isso ainda se faz presente atualmente. Na arte, como Nayara Barreto aborda, historicamente, a imagem do corpo nu da mulher foi tratado como um objeto de contemplação. O corpo sexualizado é visto como um ícone da cultura ocidental.
Cabe a nós, enquanto produtoras de imagem, desconstruir essa sexualização do corpo feminino. Entretanto, essa discussão demanda uma reflexão maior que nos propomos a fazer em outra oportunidade.

Mais uma vez, nós agradecemos a todas e todos que participaram do Nítida Convida. Encontros como esse precisam acontecer para ouvirmos umas as outras e criarmos uma rede. Sabemos que o machismo dentro da fotografia reflete a sociedade que vivemos e é preciso que haja união entre as mulheres para que possamos combater juntas esse tipo de atitude. Mais desses virão.

1 Amélia Siegel Corrêa – As mulheres na história da fotografia brasileira: alguns apontamentos
2 Coletivo Ágata – Sobre fotografia, festivais e respeito
3 Fernanda Grigolin
4 Nayara Barreto – Do nascimento de Vênus à arte feminista após 1968: um percurso histórico das representações visuais do corpo feminino

 

 

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